
Por: João Carlos MarinsA Antiga Aliança, dada pelo Senhor a Moisés, no Deserto do Sinai, traz um conjunto de Leis, Mandamentos, Prescrições, Preceitos, Decretos, Juízos, Promessas etc, que se tornaram na base do Judaísmo. O Tanakh, equivalente ao Antigo Testamento da Bíblia dos Cristãos, foi endereçado primariamente aos Judeus. Seu conteúdo apontava para a chegada do Mashiah, Jesus Cristo, sendo um manancial de ensinos na direção da santidade e da eternidade com Deus, um manual de boas práticas e de exemplos para um viver em fidelidade a Deus, e em cooperar com o bem-estar dos semelhantes.
Quando cotejo o conjunto de práticas das comunidades cristãs modernas com o texto das Sagradas Escrituras tenho a ‘impressão’ de que temos, como base primordial, algo como um Terceiro Testamento, que consiste em alguns preceitos do Antigo Testamento e outros do Novo Testamento, considerados como dogmas e que não ‘podem’ ser debatidos no âmbito dessas comunidades (é como se constituíssem conjuntos de preceitos convenientes aos entendimentos daqueles que lideram cada um dos novos movimentos religiosos, onde são evidenciados preceitos que ‘interessem’ àquele novo agrupamento, desprezando-se outros preceitos, sejam de um ou do outro Testamento).Aliás, cada comunidade de per si não se dá ao direito da discussão honesta das posições contraditórias, das opiniões que cada cristão leitor da Palavra de Deus tem após o contato com os textos sagrados. Talvez a existência de tantas denominações cristãs guarde relação com esta dificuldade de se debater ou de se buscar o estabelecimento de consenso de temas que ensejem interpretações diversas.
Não tenho como motivação trazer mais controvérsia, ou de ‘jogar gasolina no fogo’, ao debate bíblico, mas a de tentar trazer à tona a curiosidade bíblica, o desejo pela investigação dos textos das Sagradas Escrituras, comparando texto com texto, considerando que pode haver ‘um texto (um outro olhar, uma luz mais intensa) por trás daquilo que está efetivamente escrito’. Consideremos que, além do fenômeno da ‘interpretação particular’, convivemos também com questões relacionadas à pobreza de certas línguas (idiomas) no trabalho da tradução da Bíblia a partir das línguas originais, e com aspectos que dizem respeito também ao ambiente cultural relativo aos tempos e às localidades onde os eventos bíblicos foram vivenciados.
Os Testamentos, Antigo e Novo, não se referem apenas a uma divisão no tempo a.C. e d.C em que a história se deu, e falam de Alianças. Podemos, assim, dizer que o Antigo Testamento nos fala da Antiga Aliança, feita a partir do derramamento do ‘sangue de bodes e bezerros’, e que o Novo Testamento nos diz da Nova Aliança, que consistiu no derramamento do ‘sangue de Cristo, que pelo Espírito Eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus’ (ler Hebreus 9.11-15). Cada um destes Testamentos também nos fala de distintos Sacerdócios. O texto da Carta aos Hebreus é muito elucidativo sobre estas questões.O Sacerdócio vigente no Antigo Testamento é o Sacerdócio Levítico, ou Aarônico, dado por Deus a Moisés, no Deserto do Sinai, quando da peregrinação iniciada com a saída dos hebreus do Egito em direção à Terra Prometida. Poderíamos dizer que o Antigo Testamento, como assim o consideramos, ou Tanakh, como é tratado pelos judeus, é a Bíblia do Judaísmo. Nem por isto havemos de desprezar o conjunto de Mandamentos, Leis, Prescrições, Preceitos, Decretos, Juízos, Promessas etc, pois nos ajudam a entender muito mais claramente o ministério terreno de Jesus, sua missão, seu poder, bem como quanto à forma como somos chamados a nos relacionar com Deus e com a criação, a compreender a importância de um viver sob princípios que nos orientarão a um viver vitorioso e que sirva de testemunho de Deus (e de Jesus) no curso da nossa trajetória de vida na terra.O Sacerdócio que está sobre a Igreja é aquele que está posto sobre o nosso Sumo-Sacerdote, Jesus Cristo, que foi estabelecido segundo a Ordem de Melquisedeque (Hebreus 7.21). Foi o próprio Senhor Jesus quem disse que o seu sangue é o ‘sangue da Nova Aliança’. Neste novo modelo sacerdotal, todos os que se põem sob o senhorio de Jesus e sob o poder deste sangue são chamados a exercer este sacerdócio.
Diferentemente da Antiga Aliança, em que havia uma classe sacerdotal (a Tribo de Levi) e as demais tribos, que não tinham atribuições sacerdotais, na Igreja, Jesus é o Sumo-Sacerdote e todos os demais são dados como sacerdotes. Pedro nos fala do Sacerdócio Real como nossa condição decorrente da nossa íntima relação com Jesus e com os seus ensinos a nosso respeito. Podemos ver isto em I Pedro 1. Assim, o Novo Testamento, ou Nova Aliança, é a base primária para a vida prática da Igreja.
Apenas para concluir este ponto, e a título de curiosidade, o Tanakh contém o mesmo conteúdo que encontramos no Antigo Testamento, só que seguindo uma organização distinta, cujos livros são assim divididos: Torah, Nevi’im e Ketuvim, ou seja, a Lei, os Profetas e os Escritos. A Lei contém os cinco primeiros livros da nossa Bíblia, na mesma ordem em que os conhecemos. Os Profetas, conjunto de livros que vêm a seguir, são assim apresentados: Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. Por fim, os Escritos são assim apresentados: Salmos, Provérbios, Jó, Cantares, Ruth, Lamentações de Jeremias, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras e Crônicas.Para finalizar, as maiores estruturas cristãs atuais têm cânones distintos quando se trata de Antigo Testamento. O cânon da igreja romana contém 73 livros, o da igreja ortodoxa russa,77, e a o da igreja etíope (cânon tewahedo) contém 81 livros. Você pode ler sobre isto clicando aqui
Nisto pensai!João Carlos Marins é teólogo, pastor e especialista no tema responsabilidade social
Fonte Comunhão.
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